
O começo desta história, aqui!
Capítulo 2.
Quando criança o mundo para mim era restrito a algumas poucas coisas e entre elas estava meu querido amigo João. Éramos unha e carne. Sempre preferi João a qualquer uma de minhas amigas, o que acabou por enfurecer as poucas que eu tinha e, aos poucos, fui me afastando, ou sendo afastada. Dei de ombros, afinal eu tinha João e ele era a melhor coisa deste mundo. Costumávamos brincar muito no quintal da casa de minha avó, onde morei durante uns bons anos de minha infância. Era meio que um ritual. Chegávamos da escola, engolíamos o almoço e quem terminasse primeiro corria para o quintal. Às vezes, o João era convidado a almoçar em casa e isso era o céu, assim não perdíamos tempo e corríamos para o nosso QG. Eu queria mesmo é que o João almoçasse sempre em casa. João adorava escrever e eu ler. Ele dizia que quando crescesse seria escritor e famoso. Eu dizia que seria leitora profissional, só para poder ler todos os textos dele, tudinho, atémesmo os bilhetinhos.
- Érika, isso não existe. Você não pode querer ser leitora e só isso. Vamos, vai. Não é possível que você não goste de nunhuma profissão de verdade!
- Eu posso inventar uma profissão, João! Pronto, acabei de inventar. Leitora profissional e não se fala mais nisso.
- Você bem que poderia ser professora...
E eu, anos mais tarde, resolvi ser aquilo que o João achava que eu deveria. Ele sabia das coisas e sabia de mim. Professora de literatura. Já o João acabou fazendo um curso técnico de eletrônica, por pressão dos pais que achavam que ele deveria aprender um ofício, e os livros foram se distanciando cada vez mais do mundo dele e, de repente, havia uma cratera entre os nossos mundos.
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É engraçado. Este quintal era muito maior na minha memória. Um pedacinho de terra cercado, dois balanços enferrujados, até a Mangueira agora me parecia pequena, menos imponente. Eu e o João tínhamos enterrado um pequeno tesouro ao pé da Mangueira na última vez em que nos vimos. Ele trouxe os dele e eu os meus. Ali, naquele baú velho trancamos os nosso livros prediletos, aqueles que nos acompanharam durante toda a nossa infãncia.
- Este é o nosso segredo agora, Érika. Enquanto este baú permanecer enterrado, a gente vai estar sempre juntos.
Me disse estas palavras e me enredou em um beijo doce, quente e molhado. O nosso primeiro e único. E agora, já que o mundo iria mesmo acabar decidi que queria os meus livros perto de mim.
- Sabia que te encontraria aqui, Érika.
Era ele, era João, era o seu João.
A continuação hoje mesmo, aqui!





