quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo. História 8, Capítulo 2


O começo desta história, aqui!

Capítulo 2.

Quando criança o mundo para mim era restrito a algumas poucas coisas e entre elas estava meu querido amigo João. Éramos unha e carne. Sempre preferi João a qualquer uma de minhas amigas, o que acabou por enfurecer as poucas que eu tinha e, aos poucos, fui me afastando, ou sendo afastada. Dei de ombros, afinal eu tinha João e ele era a melhor coisa deste mundo. Costumávamos brincar muito no quintal da casa de minha avó, onde morei durante uns bons anos de minha infância. Era meio que um ritual. Chegávamos da escola, engolíamos o almoço e quem terminasse primeiro corria para o quintal. Às vezes, o João era convidado a almoçar em casa e isso era o céu, assim não perdíamos tempo e corríamos para o nosso QG. Eu queria mesmo é que o João almoçasse sempre em casa. João adorava escrever e eu ler. Ele dizia que quando crescesse seria escritor e famoso. Eu dizia que seria leitora profissional, só para poder ler todos os textos dele, tudinho, atémesmo os bilhetinhos.


- Érika, isso não existe. Você não pode querer ser leitora e só isso. Vamos, vai. Não é possível que você não goste de nunhuma profissão de verdade!

- Eu posso inventar uma profissão, João! Pronto, acabei de inventar. Leitora profissional e não se fala mais nisso.

- Você bem que poderia ser professora...


E eu, anos mais tarde, resolvi ser aquilo que o João achava que eu deveria. Ele sabia das coisas e sabia de mim. Professora de literatura. Já o João acabou fazendo um curso técnico de eletrônica, por pressão dos pais que achavam que ele deveria aprender um ofício, e os livros foram se distanciando cada vez mais do mundo dele e, de repente, havia uma cratera entre os nossos mundos.


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É engraçado. Este quintal era muito maior na minha memória. Um pedacinho de terra cercado, dois balanços enferrujados, até a Mangueira agora me parecia pequena, menos imponente. Eu e o João tínhamos enterrado um pequeno tesouro ao pé da Mangueira na última vez em que nos vimos. Ele trouxe os dele e eu os meus. Ali, naquele baú velho trancamos os nosso livros prediletos, aqueles que nos acompanharam durante toda a nossa infãncia.


- Este é o nosso segredo agora, Érika. Enquanto este baú permanecer enterrado, a gente vai estar sempre juntos.


Me disse estas palavras e me enredou em um beijo doce, quente e molhado. O nosso primeiro e único. E agora, já que o mundo iria mesmo acabar decidi que queria os meus livros perto de mim.


- Sabia que te encontraria aqui, Érika.


Era ele, era João, era o seu João.


A continuação hoje mesmo, aqui!

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Alguém aí?



Alguém aí tem algum remédio que dissolva?

algo que me esvazie?

alguma pílula para aliviar o mal- estar?

ou algo que me faça de uma vez vomitar?



Alguém aí para me mostrar o orifício?

uma brecha, uma fresta

um respiro

direita ou esquerda?

devo seguir em frente.



Alguém aí pode arrancar?

desentupir?

desobstruir.

Diabo verde


Uma angioplastia, urgente!



e um cateter pra minh' alma.



Alguém aí?

Eu e ela


ela diz que é assim e foda-se

eu tento não dizer foda-se

mas acabo dizendo...

ela acha que eu faço tipo

eu acho que ela é grosseira

ela me esnoba por ser politicamente correta

eu tenho horror a pessoas politicamente corretas

ela não se importa em ser o que é, mesmo que machuque

eu quase peço desculpas a mim mesma por pensar o que penso

eu tento medir as palavras

ela vomita o que pensa

eu acho que a amizade tem limites

ela não tem limites

eu tento ser uma pessoa melhor

ela só quer ter o direito de ser ela mesma

eu reprimo meus sentimentos

ela faz questão de escancará-los

eu procuro esquecer as coisas ruins

ela prefere remoer a dor

eu penso que deveria comer menos gordura

ela pede mais

eu estou certa

ela está errada

eu estou errada

ela está certa

somos taurinas

e amigas para o que der e vier.




segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo. História 7, Capítulo 1




História 7, Capítulo 1


Gostava mesmo era de olhar para trás e observar as pegadas que deixava no caminho. Desde criança, bem antes da chegada da irmã Mariana, Ana Clara gostava de caminhar pela praia e deixar suas marcas por todos os lados, algumas mais fraquinhas e outras bem fortes, dependendo do seu humor. Costumava pular bem cedinho da cama, engolia forçada uma caneca de leite com Nescau, apenas por insistência da madrasta Rosa, e corria para a praia. Nunca havia se incomodado com o fato de estar só. Na verdade, gostava e muito da sua própria companhia. Tinha suas próprias brincadeiras, adorava inventá-las. Acostumara-se a estar sim, só. Por algum tempo tentou chamar a atenção do pai, um médico famoso que ostentava prêmios e menções honrosas na parede do escritório, mas aos poucos com a insistente indiferença deu-se por vencida.


- Seu pai é um homem muito ocupado, minha querida. Por favor, não o aborreça com bobagens. E por favor, minha filha, seja educada na casa de sua madrasta. Não há quem suporte crianças mal-educadas.


Cansara de ouvir os conselhos da mãe. Toda vez era a mesma ladainha. Seu pai é um homem MUITO importante.. não o aborreça... ninguém suporta... Sentia que o pai era intocável. Aprendeu a comer em silêncio, a brincar em silêncio, a virar páginas de livros em silêncio. Tudo poderia incomodar o pai e isso definitivamente não era bom. Lembra-se com riqueza de detalhes do dia em que entrou na sala distraída e esbarrou na mesinha do telefone que espatifou no chão. O pai, como de costume, estava sentado na poltrona verde lendo o jornal do dia. Apenas baixou o jornal e lançou-lhe um olhar furioso, dilacerante. Rosa inesperadamente abriu a porta de casa e nunca foi tão feliz com a presença da madrasta como naquele momento.


- Estou grávida!


Ficou estática e muda por uns bons minutos, ali parada no meio da sala, enquanto o pai e a madrasta comemoravam a vinda daquela que seria sua irmã Mariana.


A continuação desta história, amanhã, aqui!




terça-feira, 10 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo. História 6, Capítulo 2


O começo desta história está aqui: http://www.retalhosdejulianahilal.blogspot.com/

Betina adentrou a cabana com seu microvestido cor de rosa, sem pedir licença. Atirou-se nos braços do ser que se encontrava no casebre. Chorava desesperada, buscando recuperar o fôlego, quando se deu conta de estar abraçada a um macaco. Sim, não era um homem como de relance podería-se supor, mas sim um macaco!

Livrou-se do abraço apertado, voltou-se para a porta para fugir daquele lugar, quando o macaco puxou-a de volta para si, em um movimento brusco e ao mesmo tempo protetor.

- Não tenha medo, senhorita. Venha comigo. Precisamos nos esconder, rápido!

- Como sabe que preciso me esconder, sua.. sua.. sua coisa nojenta!

- Conheço bem os que estão atrás da senhorita. São os palhaços do Éden. Vamos, não há tempo a perder.

Sem muitas alternativas, Betina esforçava-se para compreender tudo o que estava acontecendo, espremendo ao máximo sua cabecinha loira platinada. O macaco afastou a mesa de jantar com rispidez. A portinhola de madeira revelou-se aos olhos pasmos de Betina. Puxada pelo macaco foi conduzida para dentro da porta, onde pôde reconhecer um longo túnel.

-Você primeiro, por favor. Confie em mim, Betina.

- Como é que você sabe o meu nome? Mas, afinal de contas, quem é você!!!?

- Assim que chegarmos ao outro lado, você compreenderá, doce Betina.


A continuação da história? Clique aqui! Mas, só amanhã...



quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vida


Ontem, depois de várias tentativas frustradas de falar com meu namorado pelo Skype, decidi rever minhas fotos da viagem para a Alemanha para ver se a distância entre nós encurtava, como que num passe de mágica. Tive vontade de me enfiar dentro daquelas fotos. Quem sabe não é só uma questão de fé? Senti muitas saudades da minha pacata vidinha nas pequeninas vilas de Windecken e Budesheim. Dos bosques das histórias dos irmãos Grimm, da tranquilidade das ruazinhas, das casas com cara de cartão postal, do ar puro, do apfelwein caseiro e, sobretudo, das pessoas com quem convivi. A Irasema é uma delas. Desde que voltei há três meses trocamos apenas um breve e-mail. Ontem à noite, depois da piegas sessão "Relembrar é viver", decidi parar de ser cuzona e escrever para ela. Tá, tudo bem que exige um tempinho parar para escrever em espanhol - a Irasema é mexicana - mas é um lance tão simples e que a gente vai adiando só por adiar mesmo. Hoje, ao chegar no trabalho abri meu e-mail e ela já havia respondido. Me contou das viagens que fez, das luzes de Paris, da charmosa Munique e da bebedeira declarada da Oktoberfest e ainda das viagens que fará, uma delas em breve para a Suiça, com um mocinho que ela conheceu em uma festa em Frankfurt, enquanto eu ainda estava lá. Me contou das novas amigas que encontrou, meninas que assim como ela deixam seus países para trabalhar como babás, ainda que muitas delas sejam super qualificadas, assim como a própria Irasema que é engenheira ambiental, só para viver o sonho de estar fora de seus países e quem sabe encontrar oportunidades no velho continente... Me contou que ano que vem se mudará para Valência e fará o mestrado que tanto almejou. Me contou sobre a vida. Senti um aperto e uma vontade incontrolável de chorar. Percebi que almejo coisas muito parecidas para minha vida. Quero viajar, quero conhecer pessoas, aprender novos idiomas, respirar outros ares, ouvir outras opiniões viciadas ou não, sacar outras realidades. Fiquei muito feliz por você, amiga. Feliz em saber que está vivendo e ponto. E este aperto, esta vontade de chorar é o desejo de agir, de transformar de se reinventar. Uma panela de pressão. Vai estourar, mas vai ser bom, muito bom. E aí, meu irmão, quem estiver por perto é bom que esteja preparado, senão é melhor cair fora enquanto há tempo.

Em homagem à minha querida amiga Irasema, pois é com esta frase que ela costuma finalizar os e-mails que manda.


"Yo, lo que quiero que me salga bien es la vida."
(Miguelito)


Folhetim Vagabundo - História 5 - Capítulo 3



A história começa aqui: http://olhosrecemnascidos.blogspot.com/

História 5 - Capítulo 3


Saltou do metrô decidida a descobrir quem era o cara do saxofone e que tipo de relacionamento mantinha com a suposta vítima.

Arrotou o boa noite de sempre, tão burocrático quanto seus bom dias e pela primeira vez dirigiu-se ao porteiro do prédio.

- Seu Jorge, me diga uma coisa. O senhor sabe me dizer quem é o cara do 12º, o tipo do saxofone?

O porteiro lançou-lhe um olhar petulante como se Helena tivesse cometido alguma espécie de delito ao dirigir-lhe a palavra. Agora sabia o porquê nunca havia prestado muita atenção no velho medíocre. Se acha o dono do prédio, o imbecil, pensou virando-se de costas para o porteiro.

- Por quê? A senhorita tem alguma reclamação? É o barulho, né não? Tá incomodando?

- Não, Seu Jorge. A música não me incomoda. Era apenas uma curiosidade, mas deixa pra lá.

- Olha, menina, o que sei é que o Marcelo toca todas às quintas num bar de jazz ali na Cardeal. O lugarzinho tem um nome bem do esquisito. É alguma coisa com Te... Te...

- Teta! Obrigada, Seu Jorge! Muito obrigada!

Subiu os onze lances de escada como de costume, mas desta vez sem paradas estratégicas entre um andar e outro. Seu coração parecia saltar-lhe boca afora. Agora, o retrato tinha também um nome. Marcelo.

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Odiava chegar sozinha nos lugares, embora já estivesse acostumada a amargar uns tragos e outros em algum canto de bar, tendo como companhia fiel seu copo de 12 anos. Suas mãos suavam frias e sentia os pés escorregarem nas sandálias de plástico e tiras pretas que havia descolado em um brechó do bairro. Num gesto impensado dirigiu-se para a mesinha no canto esquerdo do palco. Ele já estava lá. Estavam terminando de passar o som. É agora, pensou. Vou chegar e perguntar de uma vez. Mas, perguntar o quê? Acendeu um cigarro e ao levantar os olhos deu de cara com ele encarando-a. Gelou. Marcelo aproximou-se da mesa.

- Oi. Você me arruma um destes?

- Claro.

Puxou o cigarro desajeitada e estendeu-lhe a mão. Marcelo tirou o isqueiro preto do bolso. Foi quando ela pôde ver a mesma estrela tatuada no dorso da mão que segurava o isqueiro.

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A história continua amanhã. Confira o capítulo 4. Aqui!